5.17.2015

| this is a "pity me post", but it's ok


dói-me.

já não é necessário questionar o quê. porque nove em cada dez vezes, quando dói, dói tudo. como se a pele se transformasse numa espécie de camisa de forças, feita de ferros ardentes que se espetam na carne até às articulações, até aos ossos.

dói-me.

as pessoas, que me rodeiam, tornaram-se imunes a este rotineiro lamento. encolhem os braços, fazem aquela careta característica, como se a dizer, "coitadinha" ou - em última instância - fingem que não ouvem.

eu não os condeno. não é fácil (con)viver com alguém doente, 24 sobre 24h. não é fácil ser-se o outro, o saudável, o que vive sem dor. porque nem todos nascem para serem enfermeiros (nem eu queria que assim fosse), ou porque, outros não sabem mais o que fazer para ajudar, afinal, tentaram tudo o que estava ao seu alcance... sem sucesso.

dói-me.

hoje, tomei banho, pela primeira vez, na nossa casa-de-banho grande. não é costume. o planeta não tem água para gastar nos meus devaneios. hoje, contudo, abri uma excepção. os banhos de imersão, com sal e muito vinagre, costumam aliviar a dor.

deitei-me na banheira, com a grande janela aberta para o exterior. dali, consegue-se ver a chaminé rústica, da casa lá do fundo da rua.

distraí-me, por instantes, do motivo que me levou a tomar aquele banho de imersão. por vezes, sinto um chamado sedutor, por parte da morte. não que eu queira morrer. não, nada disso. muito pelo contrário. a morte é demasiado definitiva e eu quero viver. viver muito. viver tudo a que tenho direito. mas, se existisse uma espécie de morte de curta duração... para aí de 20 e poucas horas, eu não hesitaria. ainda mergulhei, várias vezes... mas, não é possível. que pena.

não. dormir não é uma hipótese.

dói-me.

quando me deito (não tenho posição para estar). quando me viro (a dor aumenta ainda mais). não... a dor não me permite esse capricho de querer dormir umas horas, que sejam, sossegada. por isso, essa ideia de morte de curta duração, me fascinar.

[quando era criança tinha esta espécie de esperança que Deus me transformasse numa barbie. bem, no meu tempo, a boneca chamava-se tucha e era bem mais saudável. eu queria ser como a boneca e rezava fervorosamente para que tal acontecesse... a razão? sempre que me doesse algo, eu poderia "desencaixar" o membro que me doesse. tipo, a perna ou o braço. sim, conheci cedo a dor. posso até afirmar, que somos amigas de infância.]

dói-me.

e já nem sei mais o que pensar, o que dizer, muito menos, o que escrever. porque até o acto de pensar ou falar, agrava a dor.

escrever, então...

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