4.20.2015

se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir *


de vez enquanto, a minha mãe espreita o meu blog e fica sempre aborrecida com o que lê. porque te expões demasiado, porque ninguém precisa de saber a tua vida - exclama, irada.

já lhe expliquei que, se o faço, é porque necessito de o fazer: como se de uma espécie de terapia, se tratasse. uns vão ao psicólogo, outros escrevem.

ultimamente, contudo, a vontade de escrever diminuiu. não que a necessidade de o fazer tivesse, também ela, diminuído. muito pelo contrário. o problema centra-se na falta de forças, porque é preciso ter força, para desabafar tudo o que nos magoa, tudo o que nos vai consumindo, devagarinho.

estou triste. e se estou triste, não foi - de modo algum - culpa minha. eu sei de cor, o que necessito fazer, para me manter sã. aprendi com a vida e com a morte, os ingredientes necessários para alimentar, de uma forma saudável, tanto o corpo, como a alma. se estou triste e a culpa não foi minha, só me resta uma opção. cortar pela raiz, toda e qualquer erva daninha que esteja a pôr em causa, a minha sanidade.

como fazê-lo? não sei.

nunca me senti tão só, agora que estou tão acompanhada. na grande cidade, e apesar de ser grande - ou talvez, por ser grande - estava mais sozinha (contudo, sentia-me acompanhada. sabia perto, os meus amigos, a minha família). aqui, vivo numa espécie tribo, onde todos sentem necessidade de acrescentar algo mais à sopa, como se eu não soubesse cozinhar... (mas, no final das contas, é cada um para o seu lado, que a sua sardinha é maior e mais gorda).

(compreendem o que eu quero dizer? às vezes, sou um pouco confusa... eu sei)

o mimetismo de algumas pessoas, é o que me assusta mais, confesso. a capacidade de se camuflarem, a flexibilidade que demonstram, sempre que é necessário encarnar uma personagem... pensei que tal estivesse circunscrito às grandes cidades (pela necessidade de se ser Outro, para se conseguir sobreviver à selva de betão) e às pequenas aldeias (porque as línguas viperinas fazem parte da cultura local). mas não. erro meu, pensar assim.

dizer que me sinto traída, é pouco. mas, em termos de comparação, a desilusão que sinto, de mim mesma, ultrapassa tudo. porque, afinal a culpa é minha. se estou triste é porque permiti. já deveria saber que é, totalmente, absurdo, criar expectativas. porque  criar expectativas, significa inevitavelmente - mais cedo, ou mais tarde - desapontamento.

é certo que poderia ver os recentes acontecimentos, pelo lado positivo: enganaste-me por pouco mais de meia dúzia de anos, não me enganas mais. porém, existem mais pessoas, neste caldo mal amanhado. pessoas que me são caras, pessoas que são sangue do meu sangue. pessoas que conheço, muito para lá, de meia dúzia de anos. minhas pessoas.

então, porque com as minhas pessoas, ninguém faz farinha, a tristeza reformula-se, dando lugar a sentimentos mais mesquinhos. e eu, que me tenho esforçado tanto, para me tornar uma pessoa melhor (porque eu tenho o meu muito mau feitio, que precisa de ser trabalhado afincadamente), vejo-me emaranhada num novelo de intrigas, com um objectivo bem definido: dar o troco.

felizmente, surge o bom senso, sussurrando-me sossega. tudo vai ficar bem. tudo está bem.    

tento, agora, regressar ao ponto de partida. novamente. porque sempre que saio do caminho, a única solução é começar tudo de novo. o começo passa por, uma vez mais, retornar a essa paz [interior] que me acalma, que apazigua tudo o que tenho cá dentro.

fazer uma pausa. conectar com a natureza. com os pés bem assentes no chão, abraçar uma árvore e ouvir\sentir o que ela tem para dizer.  inspirar... expirar... celebrar o momento, a vida, o amor, a amizade. agradecer o ar que se respira e o sol quentinho. molhar os pés no rio e apreciar a água que sacia essa sede de paz.

e voltar a ser, somente, Ser. ♡


 * bernardo soares

1 comentário:

Fê blue bird disse...

Minha querida, também venho aqui muitas vezes ...
Sabes, apesar de gostarmos muito uma da outra, a "distância" vai-nos afastando e vamos preenchendo esse vazio com outras coisas, outra vida e tudo se desvanece.
Quer queiramos quer não há alturas da vida em que as palavras não chegam, é preciso o contacto físico, o olhar nos olhos o sentir e isso não podemos ter, então resta o silêncio e uma dor cá dentro por não nos podermos ajudar mutuamente.
A natureza é o teu equilíbrio, o meu é a pintura a dança e não pensar nas muitas coisas que me atormentam.
Vamos trilhando o nosso caminho e um dia eu sei que daremos as mãos e então encontraremos as palavras agora perdidas.
Tem coragem!

Beijinhos muitos e até...