4.14.2015

| o homem que conseguia cortar a trovoda


lembro-me de acordar sobressaltada. a cama estava aos soluços e as paredes sentiam-se tremer. pressentia-se um rebuliço, lá fora. levantei-me e corri para os braços da minha mãe. é só uma tempestade. ah, então está bem.

a porta da rua estava aberta e a janela da sala de jantar também [porque um raio pode entrar em casa e assim tem por onde sair, dizia a minha tia]. subi ao sofá e debrucei-me no parapeito. a casa dos meus tios, em trás-os-montes, fica mesmo em cima de uma montanha, rodeada por outras tantas montanhas... sim, eu acordara mesmo a tempo de assistir à soirée e ocupava o melhor lugar da sala.

o céu, qual tela pintada por um artista enraivecido: chicotadas de dourado e prateado rasgavam o negro e transformavam a noite em dia. a banda sonora, tenebrosa, ensurdecedora.

sai daí, rapariga, que é perigoso! mas, tia... pronto, está bem. [chata].

a minha mãe voltara-se a deitar. está frio, vou dormir. a minha tia, expressão fechada, parecia rezar. o meu tio, enfiado na cama... deixa-o lá, sabes que ele tem medo da trovoada. um adulto com medo da trovoada... [hihihi!!!].

o meu pai colocou meio copo de água em cima da mesa. em cima do copo de água, um pedaço de pão. em cima do pão, uma faca. é para cortar a trovoada. ah... cortar a trovoada. boa.

a tempestade começou a amainar e eu fui-me deitar que o sono começava a pesar-me nos olhos.

de manhã, acordei com o barulho do povo, na estrada. geralmente, aquelas pessoas falam alto, mas naquele dia, falavam ainda mais alto. pareciam agitados, nervosos... corri para a rua. a trovoada dessa noite destruíra quase todas as culturas. as vinhas, as oliveiras... depressa, porém, abstraí-me daquele lamento e olhei à minha volta.

as montanhas, com cores mais nítidas do que o costume. cintilantes. fechei os olhos e respirei fundo. o aroma... aquele que fica depois da chuva beijar a terra...

hoje, quando sinto o cheiro da chuva, lembro-me daquela noite. em que a minha tia rezava e o meu tio [medroso, hihihih] se escondia debaixo dos lençóis. e, principalmente, da mágica que o meu pai fez com meio copo de água, um pedaço de pão e uma faca:

ele conseguira cortar a trovoada...

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