11.17.2014

{ser feliz}


@ lisboa

"se é verdade que desde os tempos mais remotos o conceito e a sua experiência moveram a humanidade, de poetas a filósofos, nunca tanto como agora se falou em Felicidade. 

aparentemente, nos tempos que correm, parecemos todos ligeiramente infectados - uns de forma mais severa do que outros - com um vírus altamente contagioso que nos leva a necessitar estar sempre inspirados por algo ou alguém e a viver num estágio aspiracional constante. de uma forma algo caricata, «Ser Feliz» passou a ser a resposta automática e lógica à pergunta, «o que desejas para ti?». mas que diabo, pergunto-me: em algum tempo, alguém teve como meta e ambição ser infeliz? ser feliz esgota por si a condição do que somos ou queremos nesta vida? e o que é isso de Ser Feliz? um package de luxo ou uma pomada que se compra? somos todos felizes da mesma maneira? alguém é feliz a todo tempo? 

a ser uma meta e uma condição indispensável à vida - e defendo que é, em parte, pelo menos quando queremos experienciar em pleno quem somos - parece ter sido esquecido um importante detalhe. é que a Felicidade, como tudo o resto, é fruto de um caminho que se percorre. e que esse caminho, como todos os caminhos, é feito de escolhas. se as fazemos bem ou não, a cada passo, cabe a cada um avaliar. mas são precisamente essas escolhas, e os resultados delas, que nos permitem aferir o nosso grau de conforto com nós próprios.  a esse grau de conforto que genericamente chamamos Felicidade. só que tudo isso, obviamente, dá TRABALHO. e, acima de tudo, obriga a passarmos um bom tempo connosco. 

se de uma forma geral toda a gente quer ser feliz, muito poucos o querem ou conseguem ser consigo mesmos. ao primeiro beliscar de horas ou fases menos boas, aos primeiros amargos de boca depois do fim de momentos aparente ou efectivamente felizes, o comportamento recorrente é fugir de si próprio para longe. convocam-se os amigos a todas as horas mortas, introduz-se o máximo ruído e vibração aos dias, entopem-se as emoções com doses industriais de paliativos, ainda que provisórios. tapam-se as fendas e os buracos entretanto abertos com betume rápido feito de pessoas. para a maioria, vale tudo menos conhecer-se bem a si próprio e tentar perceber de onde se veio, onde se está e para onde se quer ir. resulta precisamente daí o tão actual  sucesso das chamadas pessoas inspiradoras. É um fenómeno dos nossos tempos e há que encará-lo de frente. há fome e há vontade de comer. no ecossistema social cada um se alimenta como pode. 

só que até na Felicidade, como em tantos outros objectivos da nossa cultura, o facilitismo e o imediatismo são palavras de ordem. no fundo, no fundo, queremos ser felizes como A, B, ou C, mas queremos chegar lá com as nossas escolhas. queremos o melhor de dois, três ou quatro mundos, escolhendo dar passos opostos. queremos os resultados mas não queremos os investimentos que os proporcionam. ou porque dão TRABALHO ou porque preferimos os prazeres imediatos aos retornos que por vezes demoram. E menos ainda arriscar a investir no que possa não vir depois.

seria bom que a Felicidade funcionasse por proximidade. ou por osmose. ou por injecção intravenosa. mas não funciona. a Felicidade, para quem a ambicione e da forma como ambicione, está nas mão de cada um. não se vende e não se ensina. não se compra. aprende-se na vida com as decisões que tomas. ou não. mas és tu que escolhes."

11.16.2014

{o tempo não pára... o tempo é coisa rara, eu sei}


@ lisboa

"não há alegria no sofrimento, todavia não se vive sem uma dose de dor. viver é doer vez ou outra, para depois sarar e sorrir."

| ita portugal

11.15.2014

{porque é de fé, que o homem é feito}


@ cheires

"a fé é um exercício para vida inteira. muitas e muitas vezes, eu me distancio incrivelmente dela, achando que posso resolver tudo sozinha. não é raro nessas ocasiões, na verdade é bastante comum, eu me atrapalhar toda, num turbilhão de emoções que me drenam a energia e o sorriso. mas, toda vez que consigo acessa-la, de novo, tudo se modifica e se amplia na minha paisagem interna. na fé, eu sou capaz de me dizer, com amorosa humildade, que grande parte das vezes, eu não sei o que é melhor para mim. eu não sei, mas Deus sabe."

| ana jácomo 

11.13.2014

{o melhor do meu dia}


@ cheires

"olha devagar para cada coisa
aceita o desafio de ver o que a multidão não viu..."

pe fábio de melo

11.07.2014

{e da gratidão...}


@ cheires

| na fotografia e no sentido dos ponteiros do relógio: um sapato perdido no monte, as manas, eu e o Bóris

agradeço todas as mensagens de carinho de todos os que passaram por aqui. nós temos o poder de mudar as nossas vidas... mas sem os amigos, as forças falham e tudo se torna bem mais difícil. o vosso apoio ajudou-me, novamente, a levantar. obrigada...

11.05.2014

| bisa, querida... onde quer que estejas... a justiça foi feita


@ cheires

contam que era uma velhinha [muito velhinha, mesmo] e que tinha um dedo doente. uma unha encravada que, segundo dizem, doía muito e, por mais que tratassem dessa unha, crescia sempre encravada.

contam, também, que a bisneta [menina de três anos, saia rodada e totós enrolados em fitas cor-de-rosa] estava sempre à espreita e, quando via a velhinha [muito velhinha, mesmo] sozinha, corria e pisava-a.

de-va-ga-ri-nho-com-mui-ta-for-ça
[ao estilo, psicopata sádica]

para quem não acredita na lei do karma, eu sou um bom exemplo do "cá se fazem, cá se pagam". ah, pois! é que no verão passado, a unha do dedo grande do meu pé [pequenino, macio... de cinderela, onde só serve sapato feito por medida], começou a ficar escura.

"vai ficar negra", disse-me um amigo meu, médico. "foi trauma".

qual trauma, qual quê!!! é a treta do karma. e dói. se dói. mesmo. e pior: corta-se e ao crescer, encrava. ah, pois... encrava e nem as meias suporto.

toma lá, embrulha!

que é para aprenderes a não pisar o dedo doente
[de-va-ga-ri-nho-com-mui-ta-for-ça] 
da velhinha [muito velhinha, mesmo].

bisa, querida... onde quer que estejas... a justiça foi feita.

porque a unha encrava dói que se farta. ah, dói... dói...
[bem feito] 

11.02.2014

...assim


@ web

lembro-me de estar muito frio. ia de mãos dadas com a minha mãe e com o meu pai. a rua era tão comprida que não se chamava rua: era uma avenida [sim, a minha mãe já tinha-me explicado isso].

caía uma chuva miudinha que me enevoava os olhos... parecia que estávamos envoltos num nevoeiro que molhava tudo.

onde vamos? "já te dissemos que é uma surpresa." pronto, está bem [chatos].

lá ao fundo, no meio daquela espécie de nevoeiro feito de lágrimas fininhas [porque as nuvens estavam tristes... mas, não sei bem porquê... a minha mãe nunca me explicou], uma nuvem de fumo branco. que nuvem é aquela? é o senhor das castanhas. assadas? sim. que bom! adoro castanhas assadas! podemos comprar quando lá chegarmos? que cheirinho bom... vamos mais depressa!

debaixo de um grande chapéu [igual ao nosso, mas o nosso é para usar na praia... que estranho], estava um senhor a assar castanhas. as mãos estavam tão sujas... "porque as folhas de jornal e as castanhas assadas sujam muito". ah! então, está bem.

depois de ter o meu canudinho feito de folha de jornal, cheio de castanhas assadas, bem apertadinho entre minhas mãos, pediram-me para olhar para trás: um prédio gigante com um poster quase tão gigante como o prédio. nesse poster, estavam dois cães e muitos [tantos!] cãezinhos brancos com pintas pretas!

"esta é a surpresa..."

e é por isso que, sempre que vejo uma nuvem de fumo branca com um cheirinho bom, a sobressair de um nevoeiro, lembro-me daquele dia em que aprendi que uma rua muito grande, não se chama rua, mas avenida. que as nuvens choram quando estão tristes, que os senhores das castanhas têm as mãos muitos sujas porque as folhas de jornal e as castanhas assadas sujam muito. e, principalmente, lembro-me da primeira vez que fui ao cinema... com um canudinho feito de folha de jornal, cheio de castanhas assadas. quentes e boas... quentinhas.

{as cinco fases do luto}


@ monção

elisabeth kübler-ross, numa das suas publicações, menciona os cinco estágios pelos quais, as pessoas passam quando se deparam com uma perda:

primeiro, nós entramos em negação porque a perda é tão inconcebível, que não podemos imaginar que seja verdade;

de seguida, surgem sentimentos intensos como a raiva, a revolta e o ressentimento, para além da clássica pergunta: “porquê eu?”. sentimos raiva de tudo e de todos, irritados, de igual modo, com nós mesmos;

então, nós negociamos, nós imploramos, rezamos, oferecemos tudo o que temos, oferecemos nossas almas, em troca de apenas mais um dia;

quando já não podemos continuar a negar mais os acontecimentos e nem podemos continuar revoltados contra eles, caímos em depressão, num total desespero;

até que, finalmente, os sentimentos não estão mais tão à flor da pele, como se a dor tivesse desvanecido, a luta tivesse cessado e as coisas passam então a ser enfrentadas com consciência das possibilidades e das limitações, aceitando que fizemos tudo o que pudemos, aceitando e deixando os acontecimentos fluírem...

foi assim, comigo, há cerca de oito anos atrás, aquando do diagnóstico. foi assim, comigo, nas últimas semanas, quando me apercebi que já não era mais capaz de trabalhar como antigamente, quando me apercebi que a minha tolerância à dor tinha diminuído, drasticamente. foi assim, comigo, quando me apercebi que  teria de deixar um dos meus trabalhos porque não aguentava mais, trabalhar dez horas por dia, como estava habituada.

ontem, foi o meu último dia, no trabalho que me ocupava as tardes. uma casa enorme, que me dava bastante que fazer. uma família grande, com um menino esperto e um gato cor-de-laranja gordo e preguiçoso (sim, por acaso, chama-se garfield). fiquei triste mas, contra factos não há argumentos: se continuasse naquele ritmo, mais dia menos dia, nem para mim, nem para eles, nem para ninguém.

é muito difícil para mim, com pouco mais de quarenta anos, admitir esta espécie de invalidez que se colou ao meu corpo. não aceitei aquando do diagnóstico, custou-me a aceitar agora, passados oito anos.

mas, a vida não acabou. muito pelo contrário: o fim do ano aproxima-se e com ele, a minha mudança definitiva para terras de viriato. novos caminhos, novas etapas, novas provas... uma nova vida me aguarda.

então, irei aproveitar as minhas tardes para me dedicar a esta mudança: empacotar, arrumar e sonhar...