9.05.2014

{hoje, está a ser um bom dia ♥ }


perguntaram a uma feirante se gostava de o ser. responde que sim, que não se importava de fazer trabalhos menores...

[o que são trabalhos menores?]

luto com este estigma, desde que a minha doença deu tréguas (em 2010) e eu decidi que não iria voltar a trabalhar na óptica, mas que continuaria a trabalhar com crianças.

o meu pai, agora reformado, foi alfaiate e, depois do vinte e cinco de abril até à reforma, cantoneiro de limpeza. posto de lado por uma boa parte da família, era o homem do lixo. há uns tempos atrás, uma pessoa chegada, polícia de profissão, disse-lhe que ele teria que subir muitos degraus para chegar até ele [infelizmente, eu não estava presente porque eu teria-lhe dito exactamente o que fazer com a farda]. eu aprendi muito com a profissão do meu pai... por vezes, ia com ele para o trabalho e sentia imenso orgulho dele. afinal, o meu pai ajudava a cidade a estar limpa! e os lisboetas eram tão porquinhos... [e ainda são. é só olhar para o chão e para os eco-pontos].

a minha mãe foi costureira, empregada de limpeza e ama. com ela aprendi a cozinhar e a tratar de uma casa. posso dizer que tive a melhor professora porque tudo o que ela faz, sabe fazê-lo muito bem.

há cerca de vinte anos, eu queria seguir o ensino. mas sempre gostei de pensar a longo prazo e apercebi-me que essa profissão, daí a alguns anos, estaria estagnada. por isso, resolvi frequentar um curso técnico e muitas pestanas queimadas mais tarde, tornei-me técnica de óptica. um bom emprego com um bom cargo numa excelente empresa...

contudo, fiquei doente e tive que abandonar a minha profissão. tal como tive que abandonar a minha casa.

voltar a morar com os meus pais significava lidar com a profissão da minha mãe, dia após dia. ela era cuidadora de crianças. o que eu aprendi em tantos anos... não foi só a mudar fraldas, fazer o biberão ou a interpretar choros. aprendi a amar sem exigir nada em troca. porque lidar com crianças é isso mesmo. um acto de amor.

quando a doença começou a dar tréguas, eu e minha mãe fizemos um género de parceria e passámos a ser colegas de trabalho. todos [família, amigos...] sabiam disso mas, muitas vezes, uma familiar telefonava lá para casa e quase sempre, a meio da conversa, pérola das pérolas: mas tu estás a trabalhar? onde? então, não trabalho com a minha mãe? ah, isso...

[ah, isso???]

quando a minha doença entrou em remissão, decidi que estava na hora de dar a reforma à minha mãe. ela estava muito cansada e já só estava a trabalhar para me ajudar. confesso que me custou imenso despedir-me dos meus traquinas... eles eram tudo, para mim.

vais voltar para a óptica? não. então? não sei...

há muita procura na minha área com excelentes vencimentos. ainda trabalhei numa clínica, por uns tempos. mas, não era nada daquilo que eu queria.

eu queria voltar a fazer aquilo que estivera a fazer durante mais de oito anos. mas, estudaste tanto...

sim. estudei. queimei pestanas, neurónios e sei lá mais o quê. se estou arrependida? [aqui, ficaria bonito dizer que o saber não ocupa lugar e não sei mais o quê, mas não vou dizer nada disso] estou arrependida, sim. foram anos que desperdicei a fazer algo que não me preenchia, cá dentro. na empresa onde trabalhava, ocupava uma posição muito boa, tinha um excelente ordenado... mas era infeliz. tanto que adoeci.

primeiro, um grave esgotamento que deixou sequelas... e a seguir, a espondilite. [sim, eu sei que não é uma doença profissional, mas reumática. sei, ainda, que muitos portadores podem viver uma vida inteira sem que a doença se manifeste. tal como sei que, neste tipo de doenças, há factores que podem ajudar a desencadear a doença... e no meu caso, o responsável foi tudo o que girava à volta da minha profissão].

de que me vale um emprego "melhor" [?!], estando doente?

conheço muitas pessoas que frequentam o ensino superior porque estão atrás de um sonho, da sua vocação. a essas pessoas, eu desejo toda a sorte do mundo. hoje, mais do que nunca acredito que devemos seguir o nosso coração. pode parecer romantismo, mas é a maior verdade que algum dia possamos conhecer.

também conheço pessoas com empregos xptoz, mas infelizes porque têm um "bom" emprego mas... não é aquilo. a esses, digo-lhes que ainda estão a tempo. nem só de pão vive o homem e não é o prestígio que vos vai alimentar a alma. e, acreditem, a certa altura, irão sentir o peso da escolha.

quanto a mim... entre 2012 e 2014, deixei as minhas crianças, para administrar uma pequena empresa. um emprego "melhor" [???], em comparação com anterior. resultado? o emprego "melhor" levou-me a um esgotamento, que me obrigou a ficar parada durante os últimos oito meses...

agora, restabelecida, ando - novamente - à procura de emprego. como empregada doméstica com a vertente de babysitter, claro. eu a-do-ro limpar, arrumar, passar a ferro, cozinhar... e brincar muuuito com crianças. ser empregada doméstica, pelo que oiço por aí, é considerado um trabalho menor. eu não o vejo assim. nem todos podemos ser médicos, professores, advogados, administradores... contudo, é necessário alguém, a quem estes médicos, professores, advogados, administradores, possam entregar as suas casas e os seus pequenos tesouros, de modo a que se possam dedicar aos seus empregos. há lugar para todos e todos somos igualmente importantes: desde o médico que trata o nosso corpo até ao cantoneiro que limpa as nossas ruas, impedindo a propagação de doenças.

hoje, é com tristeza que oiço coisas como: foste de cavalo para burro.

...

em dois dias, pedalei quase o bairro inteiro, à procura de emprego e já deu frutos: já tenho as manhãs ocupadas [já trabalhei hoje! e sinto-me grata, muito grata ♥ ] e hoje, irei pedalar um pouco mais - preciso ocupar as tardes e os meus braços gostariam tanto, de voltar a embalar... eu acredito que quem procura, sempre encontra!

[ps. se eu poderia voltar a trabalhar na minha antiga área, se eu poderia fazer menos quinze horas semanais, trabalhar bem menos e ganhar três vezes mais do aquilo que ganho? poder, podia... mas, não seria a mesma coisa ☺ ]

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