9.09.2014

| adietar: pôr(-se) em dieta



eu já fui gordinha. muito gordinha, mesmo. e nunca me aborreci por ser assim. desde que não interferisse com a minha saúde, não me importava de ser redondinha [pequenina e redondinha, como uma bolinha... chamavam-me, ternamente, "michelin"].

nunca fiz dietas para emagrecer. por vezes, comia menos, por um ou dois dias. mas só. sempre gostei de comer e isso de almejar por uma figura igual à das modelos, não era para mim. aliás, sempre considerei aquela magreza, doentia. é isso mesmo. doentia.

quando descobri que um tratamento possível para a minha doença seria uma dieta, não hesitei. vozes surgiram: "não vais conseguir". porém, a teimosia e a obsessão pelo perfeccionismo [é no que dá ter sol em touro, lua em escorpião e ascendente em virgem: uma mistura explosiva de mau feito], estiveram a meu favor.

segui, religiosamente, este regime que cortava com quase todos os alimentos, excepto proteína animal e alguns vegetais. lacticínios e polissacarídeos riscados do menu. ou seja, praticamente, tudo.

a tal magreza doentia que me afligia... no meu espelho. contudo, sem dores [decididamente, o mais esperado... o mais importante].

hoje, com a doença em remissão, já reintroduzi todos os alimentos e já como de tudo [weeeeee!]. foram quatro anos a proteína animal, alface e água. agora, já me consigo olhar no espelho. já reflecte, finalmente, as curvas... estou mais gordinha [não tão gordinha, mas enfim...].

actualmente, a dieta, regime ou o que quer que lhe possamos [ou queiramos] chamar, é outra. a finalidade não é perder ou ganhar peso. tão pouco descer os níveis de colesterol ou da glicémia. e, muito menos, combater uma bactéria irritante como a klebsiella pneumoniae. a finalidade é ser feliz.

vozes, mais uma vez, surgem: 

"ser feliz? com os tempos que correm?"[a padeira];
"isso de ser feliz é muito complicado"[a minha vizinha];
"e o que é a felicidade?"[a avó do meu bebé];
"desculpe lá, mas que ideia mais parva"[colega de autocarro];
"e como é que é isso?"[a minha querida amiga paula].

ou ainda,

"dieta para ser feliz? só te dá para a estupidez! quando é que cresces? és tão infantil! nem pareces ter a idade que tens. já tens 41 anos! já estava na hora de mudares"[a minha prima].


[sim...
eu estou rodeada de pessoas que acreditam que a felicidade,
ou não existe,
ou é praticamente inatingível,
ou é sonho de menina...
vá-se lá entender]

vamos lá por etapas:

"ser feliz? com os tempos que correm?"

bem... "os tempos que correm"... que eu me lembre, os tais tempos têm sido os mesmos desde que eu nasci. já no tempo dos meus pais era a mesma coisa. e no tempo dos meus avós, também. no entanto, no meio destes "tempos que correm" sempre existiram pessoas que conseguiram. ser felizes. tal qual, o seu significado. se eles conseguiram... porque não eu [nós]?.


"isso de ser feliz é muito complicado"

porquê? porque é que ser feliz tem, necessariamente, que ser complicado? eu não acredito que assim seja. nada é complicado. a vida não é complicada: nós é que temos essa tendência quase perniciosa de complicar tudo. somos eternas vítimas da pior sabotagem de todas... a auto-sabotagem.


"e o que é a felicidade?"

felicidade
(latim felicitas, -atis)
s. f.
1. circunstâncias que causam ventura.
2. estado da pessoa feliz.
3. sorte.
4. ventura.
5. bom êxito.

in priberam

ficou explícito ou terei de desenvolver?


"desculpe lá, mas que ideia mais parva"

parva? "dieta" para alcançar a felicidade... sinceramente, não consigo perceber onde está a parvoíce. a felicidade está em tudo o que vemos, vivemos e sentimos. o grande problema é que não estamos habituados [não fomos educados] a reparar nisso. existem tantos guias, tantos exemplos, tanta informação sobre o tema... só falta pôr todo este conhecimento [que temos mas não valorizamos] em prática. e, por isso, a "dieta".


"dieta para ser feliz? só te dá para a estupidez! quando é que cresces? és tão infantil! nem pareces ter a idade que tens. vais fazer 42, não vais? já estava na hora de mudares"

antes de mais, sim. estou, cada vez mais perto, do meu aniversário e eu, que não sou de falsa modéstia, adoro festejar o dia em que nasci, gosto ainda mais que todos se lembrem. faz muito bem ao ego [e se faz bem ao ego... contribui para a "dieta"]. quanto à "estupidez"... pena que existam pessoas que pensem desta forma. já sobre a "infantilidade"... sempre fui assim. acredito que nada haja a fazer para alterar esse estado [e mesmo que houvesse, eu gosto desta minha maneira de ser, obrigada].

bem... a "conversa" já vai longa. fica o "como" para uma outra altura.

agora, vou até à cozinha ser feliz. tenho que lavar a loiça. e lavar loiça deixa-me feliz porque, como a sofia escreve no seu blog, "celebro a vida no simples gesto de a lavar".

[porque ter loiça para lavar significa que houve alimento. porque há trabalho. porque tenho saúde. porque não estou sozinha. porque...]

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