5.07.2014

{doentes vs normais}


- ou com as pedras do caminho, construirei um castelo

fui diagnosticada cerca de seis anos após o surgimento dos primeiros sintomas e, nesse momento, disseram-me que seria para sempre: crónica, a dor; degenerativa, progressiva e incapacitante, a doença. 

ao contrário do que a comunidade ciêntífica afirmava até há pouco tempo, a doença não afecta, somente, o indivíduo que foi diagnosticado, porque somos aquilo que aristóteles denominou como animal social. vivemos em grupo: tudo o que nos afecta, afecta o grupo. 

e, eis que a situação agrava, um pouco mais, uma vez que a sociedade tem esta tendência natural de se afastar da doença, talvez porque longe da vista, longe do coração, acreditando que, assim, estará de alguma forma, protegida. qualquer coisa parecida com uma espécie de fuga da realidade. e se não se vê, não existe. 

a exclusão social vem, deste modo, de braço dado com o diagnóstico. isto é tão certo como a morte, já a minha avó dizia. esta pode ser considerada, então, a primeira pedra no caminho de um doente - a juntar à cordilheira de problemas inerentes ao diagnóstico, propriamente dito. como se não fosse mais que suficiente, ter que aprender a lidar com a doença, o doente terá que aprender, obrigatoriamente, a lidar com o abandono e com a solidão. 

alguns doentes não sobrevivem. não estou a referir-me à doença, em si, mas às consequências sociais que daí, advêm. a exclusão mata mais que a pior das maleitas. todos sabemos disso. 

aos que sobrevivem, uma segunda pedra: regressar ao mundo dos normais, pode revelar-se mais desafiante que sobreviver à doença e/ou à exclusão social. 

a maioria dos doentes que conseguem, de alguma forma, debelar a doença, experimenta uma mudança de paradigma: tudo o que era visto de uma maneira, passa a ser visto de uma outra maneira, totalmente diferente. quem assiste, brinca com isso, insinuando, de uma forma jocosa, que o doente teve uma epifania. mas... é isso mesmo. simplesmente, deixamos de sobrevalorizar questões que, antes, nos fariam arrancar cabelos começando, por outro lado, a valorizar os pequenos prazeres da vida, como se estes fossem únicos.  
[triste, triste, é saber que que todos nascemos normais e precisamos de ficar doentes para aprendermos a transformarmo-nos nuns verdadeiros deslumbrados...]. 

falo no plural porque eu, como já referi acima, já fui doente. cientificamente falando, ainda o sou. sendo crónica, a doença é para a vida toda. até morrer, pelo menos. é o que a comunidade ciêntifica alega.

não obstante, passados dois anos do diagnóstico e após duras lições, sobretudo, de como lidar com a estupidez alheia (aprender a lidar com a doença, foi complicado, mas não chegou à sombra da dificuldade em compreender as reacções típicas do animal social), eis-me pronta para o tal regresso. ao mundo dos normais. 

a diferença entre o grupo dos normais e o grupo dos doentes é abismal: o grupo dos doentes luta, diariamente, para se manter saudável; o grupo dos normais procura, sagazmente, sarna para se coçar. obviamente, a certa altura, dá-se um confronto entre aqueles que já estiveram no fundo do poço e aqueles que querem, sabe lá Deus porquê, ir para lá... e, preferencialmente, acompanhados. 

para o grupo dos doentes, esta é, sem a menor sombra de dúvida, A Derradeira Pedra. maior que o desafio de enfrentar um diagnóstico, de aprender a lidar com a doença e com a dor, de ultrapassar mitos urbanos e a exclusão social, de regressar à vida activa... é tentar viver lado a lado dos normais (eita povinho difícil!!), mantendo-se sãos e salvos. 

quem passou por um diagnóstico (e tudo o que esse diagnóstico acarreta) semelhante ao meu, sabe que assim é, porque sentiu-o (e, ainda, o deve sentir) na pele. 

mas, tal como animais sociais que somos, também nascemos com um extraordinário poder de encaixe. e, se conseguimos sobreviver à dor... sobrevivemos a tudo. 

já conto com cinco anos, entre os normais e decidi optar pela construção de um palácio, em detrimento do castelo. o castelo tem muralhas altas e ameias apertadas e eu gosto de me sentir livre, rodeada de vida. εїз¸¸¸.

1 comentário:

Evanir disse...

Deverimos ser gratos a Deus por nos dar
tudo que precisamos .
Com certeza nunca o que pedimos chega na hora nossa
e sim no tempo de Deus por
ele saber como e quando precisamos.
A fé é o principio de tudo e o fim é
quando perdemos a esperança.
Hoje : Deus te peço vem e fica Comigo.
Uma abençoado final de Domingo.
Uma semana de paz no coração.
Carinhosamente..Evanir.